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Diário de Bordo · lançamento

Comprar na planta no alto padrão: o que o contrato precisa dizer

No lançamento, o encanto está no decorado, e o risco está no contrato. Como advogada e advisor, listo o que um bom contrato de compra na planta não pode deixar de dizer.

Por Rita Figueiredo3 min de leitura

Mesa de pedra escura com plantas arquitetônicas abertas, maquete de torre residencial e luminária de latão acesa, diante da cidade ao anoitecer.

No lançamento, o cliente se apaixona no apartamento decorado e assina numa mesa ao lado, no calor da emoção. Eu faço o caminho contrário: leio o contrato antes de olhar o decorado. Porque o decorado vende o sonho, e é o contrato que carrega o risco. Num imóvel de alto padrão comprado na planta, quase tudo o que pode dar errado está escrito, ou está faltando, no papel que se assina no primeiro dia.

O prazo, e o que acontece se ele não for cumprido

A primeira coisa que procuro é a data de entrega, e o que vem depois dela. Um bom contrato traz o prazo, a tolerância legal, e diz o que a incorporadora paga se atrasar além disso. Atraso em obra de alto padrão acontece; o que separa um contrato justo de um armadilhado é ter, preto no branco, a consequência do atraso para quem vende, não só para quem compra.

O que exatamente você está comprando

O segundo ponto é o memorial descritivo. É ele que diz os materiais, as marcas, os acabamentos, o que é do apartamento e o que é opcional. No alto padrão, a diferença entre o prometido no estande e o entregue na chave mora aqui. Um 280 Art Boulevard ou uma Arbórea Ibirapuera se vendem pela sofisticação; o memorial é onde essa sofisticação vira obrigação, ou não. O que não estiver no memorial não é promessa, é esperança.

O reajuste, o distrato e as garantias

Depois vêm os números que crescem com o tempo. O índice de reajuste das parcelas durante a obra precisa estar claro, porque é ele que define quanto o imóvel vai custar de verdade até a entrega. As condições de distrato, se você precisar sair do negócio, dizem quanto do que pagou volta. E as garantias da construção, o que a incorporadora responde por quanto tempo depois da entrega, protegem você justamente quando o brilho do lançamento já passou.

Quem é que está prometendo

Por fim, olho quem assina do outro lado. A reputação da incorporadora não é detalhe jurídico, é a maior garantia que existe. Uma Cyrela, ou outro nome com histórico de entrega, é uma linha de segurança que nenhuma cláusula substitui. Verifico o registro do empreendimento, se há patrimônio de afetação separando aquela obra das outras contas da empresa, se o memorial está registrado em cartório. Coisas invisíveis no decorado, decisivas no contrato.

Os números que crescem, e a área que encolhe

Dois pontos escapam até de compradores experientes. O primeiro é o custo total até a chave, não o preço da tabela: somadas as parcelas reajustadas durante a obra, a parcela das chaves e o eventual financiamento, o valor real costuma ficar bem acima do número que encantou no estande. Um bom contrato deixa esse total transparente; um contrato ruim esconde o crescimento nas entrelinhas do índice de reajuste. O segundo é a metragem. O que se anuncia como área do apartamento nem sempre é a área privativa, aquela que é só sua; parte pode ser área comum rateada. Confirmar, no memorial e na incorporação registrada, quantos metros são de fato privativos evita a surpresa mais comum da entrega, a de receber menos apartamento do que se imaginou ter comprado.

Por que isso vem antes da chave

Nada disso é para assustar. Comprar na planta é, muitas vezes, a melhor decisão possível. Mas é uma decisão que se protege no começo, não no fim, porque depois de assinado o contrato manda, e a emoção já foi embora. O meu trabalho, e a razão de existir um advisor advogado do seu lado, é transformar a complexidade desse contrato em segurança, para que a sua única surpresa, no dia da chave, seja boa. É ler o contrato com a cabeça fria enquanto o cliente sonha com o apartamento, para que o sonho chegue inteiro, sem nenhuma cláusula cobrando, lá na frente, o preço da emoção de hoje.